CONCOURS GENERAL

SESSION de 2002

COMPOSITION EN LANGUE PORTUGAISE
(Classes terminales ES, L et S)

Durée : 5 heures





Texte : Do desembarque do herói em Periperi

Travail à faire par le candidat

I. ETUDE DU TEXTE

1. Estude a composição do texto e o efeito produzido.
2. Analise o retrato que o narrador fez do comandante.
3. Estude as diferentes reações provocadas pela chegada do comandante.
4. Estude a personagem de Zequinha Curvelo e o papel dele ao longo do texto.

II. ESSAI

"O hábito não faz o monge" diz o provérbio.
Acha que as aparências revelam sempre a verdadeira personalidade duma pessoa ou que elas podem apenas indicar uma verdade que vale a pena interpretar? Pelo contrário não serão as aparências mais frequentemente enganadoras?
Ilustre a sua análise apoiando-se em exemplos concretos.

III. TRADUCTION

Traduza para o francês o trecho de : "Formou-se uma espécie de pequeno cortejo... ", até "- Aqui estamos, oceano, novamente juntos."





Texte :

Do desembarque do herói em Periperi



       - Adiante, grumetes.(1)
       Voz acostumada a ordenar. Fez um gesto com a mão apontando o rumo, desceu os três degraus da plataforma, assumira o contrôle da travessia, firme pulso ao trimão(2), olhos de bússola.
       Formou-se uma espécie de pequeno cortejo a desfilar na rua: à frente, decidido e sereno, o comandante. Uns metros atrás, Caco Podre e Misael, os dois carregadores, com parte da bagagem. Caco Podre àquela hora já bebera seus tragos habituais, seu passo era incerto, não lhe ia de todo mal o tratamento de "grumete" que lhe dera o recém-chegado. Os curiosos vinham logo depois, trocando cochichos, num grupo que crescia, pois a roda do leme, na cabeça de Misael, era um chamariz.(3)
       Não entrou em casa. Contentou-se em apontá-la aos carregadores, continuou a caminhar. Dirigiu-se para a praia, andou até aos rochedos, parou a medi-los com um olhar de conhecedor, iniciou a escalada. Altos não eram, escarpados tampouco. Mas havia tal dignidade no porte do comandante que todos compreenderam as dificuldades da empresa, como se de súbito os modestos rochedos se houvessem transformado em abrupta muralha de pedras, jamais vencida pelos pés do homem.
       Ao chegar ao alto, deixou-se ficar parado, os braços cruzados sobre o peito, a fitar as águas. Assim imóvel, o rosto contra o sol, a cabeleira ao vento, semelhava um soldado em posição de sentido num desfile ou, dada a sua imponência, um general em bronze numa estátua. Vestia um estranho paletó, onde havia algo de túnica militar, azul e grosso, de gola ampla. Só Zequinha Curvelo, leitor assíduo de romances de aventuras, advinhou estar ali, diante deles, em carne e osso, um homem do mar, habituado aos navios e tempestades. Murmurou sua impressão aos outros, paletó parecido com aquele que ilustrava a capa de um romance de aventuras no oceano, história de frágil veleiro em meio a um mar de temporais e sargaços. O marinheiro na capa vestia um paletó assim.
       Durou apenas um momento aquela imobilidade mas foi um longo momento, quase eterno, fixando a imagem na memória dos vizinhos. Depois estendeu num gesto longo o braço curto e pronunciou:
       - Aqui estamos, oceano, novamente juntos.
       Outra vez voltou a cruzar os braços sobre o peito, era uma afirmação e também um desafio. Seu olhar dominava as águas calmas do golfo, onde o mar e o rio se misturavam na acolhedora baía. Havia naquele olhar e na postura imóvel, a revelação da antiga intimidade com o oceano, feita de cólera, de histórias vividas, sensível mesmo àqueles corações pacatos(4) distantes da aventura e do heroísmo.
       Assim, quando o comandante desceu dos rochedos e penetrou no círculo dos vizinhos, murmurando, como se falasse consigo mesmo, "longe do oceano, não posso viver...", penetrou também e definitivamente na admiração de seus novos concidadãos. Parecia, no entanto, não vê-los, não se dar conta de sua presença e curiosidade.
       Como se cada gesto obedecesse a um cálculo preciso, primeiro mediu com o olhar a distância a separá-lo da casa próxima e isolada, junto à praia, as janelas abertas sobre as águas. Assentou rumo em direção à porta, iniciou a abordagem. Os vizinhos seguiam atentos seus movimentos, fitavam-no com respeito: a face redonda e avermelhada, a farta cabeleira prateada, o paletó marítimo com brilhantes botões metálicos. Iniciada a marcha, entre eles e o comandante, situou-se Zequinha Curvelo: ocupara seu posto.
       Os carregadores chegavam com o resto da bagagem, o comandante baixou as ordens precisas e categóricas. Malas, camas, armários para os quartos, engradados e caixões depositados na sala.
       Só então, terminadas as tarefas, pareceu tomar conhecimento da pequena multidão a comtemplá-lo da rua. Sorriu, cumprimentou com a cabeça e pôs a mão sobre o peito num gesto onde havia qualquer gesto de oriental, de exótico. Um coro de "boas tardes" respondeu à saudação. Zequinha Curvelo, enchendo-se de coragem, avançou um passo em direção à porta.
       Retirava o comandante de um dos amplos bolsos do paletó inesperado objecto, parecia um revólver. Zequinha recuou. Não era revólver, que diabo seria? Punha-o na boca o comandante, era um cachimbo, mas não um simples cachimbo - já de si extravagância no pacato arrabalde. De espuma-do-mar, trabalhado: a boquilha representando pernas e coxas nuas de mulher, a pipa moldando-lhe o busto e a cabeça. "Oh!" murmurou o Zequinha, perdendo a ação.
       Quando a recuperou, ia-se afastando da porta o recém-chegado vizinho. Zequinha apressou-se, ofereceu-lhe os préstimos, não lhe podia ser útil?
       - Muito, muito obrigado...- declinou o comandante. Puxou um cartão de visita de uma carteira, estendeu-o a Zequinha, acrescentando: - Um velho marinheiro, às suas ordens.
       Viram-no depois, ajudado pelos carregadores, de martelo e chave de fenda, na sala, abrindo caixões. Surgiam instrumentos raros, um óculo enorme, uma bússola. Ainda demoraram os curiosos nas imediações a contemplá-lo. Depois foram espalhar as novas, Zequinha exibia o cartão ornado com uma âncora:

Comandante VASCO MOSCOSO DE ARAGÃO
Capitão de longo curso

       Eis como aconteceu a sua chegada a Periperi, naquele começo de tarde infinitamente azul, quando, de um golpe, estabeleceu sua reputação e firmou seu conceito.

Jorge Amado. Os velhos marinheiros ou Completa verdade
sobre as discutidas aventuras do Comandante
Vasco Moroso de Aragão, O capitão de longo curso.

1961



(1) o grumete : le mousse
(2) o timão : la roue du gouvernail
(3) um chamariz : ce qui attire l'attention
(4) pacato : paisible








CONCOURS GENERAL DE PORTUGAIS. Session 2002

Rapport du jury



Trente sept candidats ont composé cette année au concours général, ce qui représente une nette augmentation par rapport à l’an dernier et confirme la progression constante du nombre de candidats depuis plusieurs années. Comme l’an passé, le niveau était dans l’ensemble satisfaisant et assez homogène ; la majorité des candidats semble désormais bien préparée à cette épreuve. Cependant, le jury a eu à déplorer quelques cas, heureusement rares, de candidats qui n’ont pas su ou pu traiter la totalité de l’épreuve et ont fait l’impasse soit sur l’essai, soit sur une partie des questions ou encore sur la totalité ou une partie de la version. Même si ces copies révélaient par ailleurs un bon niveau dans les questions traitées, il est bien évident qu’elles ont été éliminées du palmarès. Il est donc important, en plus de l’entraînement aux trois parties de l’épreuve, d’apprendre également à bien gérer le temps dont on dispose.

QUESTIONS

Remarques d’ordre général :
Les défauts constatés l’année dernière (tendance à la paraphrase et manque d’appui sur le texte) ont été moins fréquents : en effet, de nombreux candidats ont été capables d’illustrer leurs réponses par des éléments précis du texte. En revanche, le jury a constaté cette année que certaines réponses, comportant par ailleurs des éléments pertinents et bien appuyés sur le texte, sont parfois restées incomplètes : en effet, plusieurs candidats ont privilégié certains aspects des questions et en ont laissé d’autres, tout aussi importants, de côté.

Question 1

Il faut tout d’abord remarquer que quelques candidats, peu nombreux heureusement, n’ont pas répondu à la question, qui portait sur la composition du texte, et se sont contentés d’évoquer les champs lexicaux, les temps des verbes, le rythme ou la longueur des phrases ou encore le ton du texte. Même si ces remarques étaient justes, elles étaient ici hors sujet.
Une majorité de candidats a bien su montrer les différents mouvements du texte, mais quelques-uns n’ont perçu sa composition que comme une succession de parties sans lien entre elles alors qu’il était important de rendre compte de l’articulation entre ces parties, et surtout d’une progression.
Ceci aurait d’ailleurs permis de mieux répondre à la deuxième partie de la question portant sur l’effet produit sur le lecteur, qui a souvent été passée sous silence ou traitée partiellement. Or, le texte était aussi construit autour d’éléments suscitant la surprise, créant un certain mystère autour du personnage, provoquant un effet de suspense, attisant la curiosité et éveillant progressivement l’intérêt du lecteur … Ces aspects n’ont été que rarement évoqués.

Question 2

Cette question a souvent été traitée de manière partielle, certains candidats ayant surtout commenté le portrait psychologique du personnage en oubliant le portrait physique, d’autres ayant passé sous silence la relation du personnage avec l’océan, ou totalement oublié certains aspects, pourtant significatifs.
D’autre part, peu de candidats ont remarqué que le portrait n’était pas fait d’un seul bloc mais plutôt constitué de petites touches s’additionnant tout au long du texte, et complété par certains éléments qui pouvaient apparaître comme des détails, mais qui étaient au contraire significatifs, comme par exemple les paroles adressées par le commandant à l’océan, ou l’épisode de la pipe ou encore la carte de visite révélant à la fin du texte l’identité du personnage.
Enfin, le jury regrette que les candidats n’aient pas vu que ces différentes touches ainsi que certains détails, parfaits clichés de l’homme de la mer, transformaient petit à petit le portrait en caricature dans laquelle la dimension ironique était bien présente dans le point de vue du narrateur. Cette ironie n’a été que rarement remarquée.

Question 3

Cette question a été bien traitée dans l’ensemble, même si l’on peut regretter, dans certains cas, une analyse incomplète et, quoique plus rarement, un certaine tendance à la paraphrase.

Question 4

Cette question a été également bien traitée dans l’ensemble : la singularité de la personnalité et du comportement de Zequinha Curvelo par rapport aux autres ainsi que son rôle comme intermédiaire entre le commandant et les habitants de Periperi ont été, dans la majorité des copies, bien analysés. En revanche, peu de candidats ont relevé son rôle dans la création du mythe se développant autour du personnage du Commandant ainsi que l’importance de son point de vue dans l’élaboration du portrait.

ESSAI

Les essais ont été, cette année, assez bien structurés. Il est vrai que le plan était induit par la formulation du sujet. Ceci étant, seule une partie des candidats a été capable d’une analyse qui aille au-delà des lieux communs et assez peu de candidats ont su s’appuyer sur de références culturelles (littérature, cinéma, etc.) pour argumenter leur opinion personnelle.
Si les introductions ont été le plus souvent satisfaisantes, introduisant clairement le sujet et le plan, les conclusions ont généralement été la partie la moins bien réussie de l’essai, car elles n’ont généralement fait que reprendre ce qui venait d’être dit, donnant au lecteur une impression de répétition et de lassitude.
La langue a été dans l’ensemble très correcte, malgré quelques maladresses d’expression et quelques erreurs récurrentes. En effet, le jury a noté, dans certaines copies, un manque de clarté, dû souvent à l’emploi de phrases trop longues ou d’erreurs de construction. Les erreurs de langue le plus souvent relevées ont été les suivantes : la place du pronom personnel complément, le régime des verbes ou des adjectifs, un mauvais emploi du relatif cujo, quelques gallicismes et des problèmes d’accentuation graphique. Le jury encourage donc les candidats à améliorer encore leur niveau de langue en se penchant avec plus de rigueur sur ces aspects qui sont, chaque année, les points faibles dans le domaine de la langue.

VERSION

Le passage proposé ne présentait pas de difficulté majeure de vocabulaire et le jury déplore plus les maladresses d’expression en français que les contresens ou les faux sens.
Quelques mots ou expressions semblent avoir posé problème. Ainsi les mots tragos (gorgées), roda do leme (le gouvernail), paletó, qu’il fallait traduire par «veste» ou par «caban» dans ce contexte marin. De même um mar .... de sargaços, (la mer des sargaces) a été à l’origine de maladresses, se tranformant même dans une copie en «mer de sarcasmes». Quant à la traduction de imponência, le jury rappelle que, lorsque le candidat ne trouve pas le mot juste, il peut avoir recours à une expression («posture imposante», par exemple), plutôt que d’inventer un barbarisme.(«imponance»).
Les expressions que les candidats ont eu le plus de mal à traduire ont été : um soldado em posição de sentido et um general em bronze numa estátua. Peu de candidats semblaient en effet savoir que posição de sentido correspond à «guarde-à-vous» et beaucoup ont proposé des formes assez maladroites, comme, par exemple, «un soldat en position de ressentiment»(!) ou encore des faux-sens comme «en guarde-à-vue». Quant à um general em bronze numa estátua, il fallait traduire par «la statue en bronze d’un général» plutôt que par «un général en bronze d’une statue», qui ne veut rien dire en français.
Enfin, le jury tient à rappeler qu’à l’occasion d’un examen ou d’un concours, le candidat doit faire son choix entre les différentes traductions possibles et non pas proposer plusieurs solutions pour que le correcteur fasse lui- même un choix.

En conclusion, nous dirons que, si la préparation des candidats semble supérieure dans l’ensemble à celle des années précédentes, le niveau des meilleures copies au concours de cette année a paru au jury quelque peu en retrait par rapport à celui de 2001. Ceci est notamment dû au fait que les candidats n’ont pas su analyser avec assez de profondeur les aspects narratifs et descriptifs pour en mettre en évidence toutes les richesses, en particulier pour ce qui concerne l’expression de l’ironie, voire ici de la dérision dans cette grande page de littérature. Par le choix de ce texte, le jury a souhaité rendre une forme d’hommage à Jorge Amado, immense écrivain, qui nous a quittés récemment.

Rapport établi par le jury
Le président du jury : Michel PEREZ
Inspecteur général de l’Education nationale